“O corpo é um lugar fantástico onde mora, adormecido, um universo inteiro.
Como na terra moram adormecidos os campos e suas mil formas de beleza, e também as monótonas e previsíveis monoculturas; como na lagarta mora adormecida uma borboleta, e na borboleta, uma lagarta; como nos sapos moram príncipes; e nos príncipes, sapos; como em obedientes funcionários que fazem o que deles se pede moram poetas e inventores que voam pelos espaços sem fim dos sonhos. Tudo adormecido. O que vai acordar é aquilo que a palavra vai chamar. (...)
A este processo mágico pelo qual a palavra desperta os mundos adormecidos se dá o nome de educação. Educadores são todos aqueles que têm esse poder. Por isso a educação me fascina (pp.93-94)”.
Convoco educadores para sentir, entender e viver o “poder mágico” ao despertar no corpo “suas mil formas de belezas” e tornarem–se “poetas, inventores”, ou melhor, seres humanos criativos.
A comunicação humana se manifesta por meio de palavras, que antes de serem lingüisticamente expressadas, elas são vividas no corpo através dos gestos, olhares, posturas e tensões musculares.
Toda educação parte da comunicação. Antes mesmo do nascimento humano, a criança já é falada, torna-se presente pelo verbal. No corpo da mãe ocupa seu espaço para crescer e existir. Este corpo ainda do tamanho da cabeça de um alfinete se movimenta, desencadeando em si mesmo e na mãe sensações múltiplas: comunicações são vividas. Desde então, a história desse indivíduo iniciou-se...
Ao nascer, a criança necessita, no plano biológico, de ser cuidada; e no plano dos afetos, necessita ser desejada: alguém que se ocupe e se dedique, mas também que lhe falte, gerando tensão. Isto provoca a motricidade (choro, agitação corporal), angústia e desejo. O corpo é acionado com sensações difusas para ser acolhido, nomeado e interpretado pelo outro. Como conseqüência, cada ser humano instaura em si modos de lidar com seu desejo e de satisfazê-los, ou não, postergando-os ou sublimando-os.
Desejo remete aos afetos, é a mola propulsora da movimentação humana, que busca satisfação, no encontro com realidade social, que interdita. Isto implica em lidar com o princípio do prazer e o princípio da realidade. Nesta dinâmica, o sujeito aprendiz constitui-se, quando há desejo de conhecer. O conhecimento provém do afeto, da mobilização corporal para preencher a falta, na busca do outro e dos objetos, tomando assim conhecimento de si, dos outros e do espaço simbólico. E isto tudo é vivido no brincar com suas brincadeiras e brinquedos: o nosso patrimônio cultural, que insere o ser humano no social.
Por isso, cabe a educação (com pais e professores) envolver o corpo inteiro da criança, este como presença expressiva do sujeito (o ser, o eu), vivenciando a nossa cultura rica de músicas, jogos, brincadeiras em geral, para despertar o corpo inteiro com sensações de bem estar e alegria de aprender.
Sonia Loreto de Miranda