|
Grafite não falta no país do pau-brasil, mas falta quem saiba usá-lo mesmo com reformas ortográficas.
Em 18 de dezembro de 1971, houve a última reforma ortográfica ( com vigência a partir de 20 de janeiro de 1972 ) em nosso idioma. Portanto, com a lei 5.765, eliminou-se o trema nos hiatos átonos ( saüdar, por exemplo); já não mais deveríamos empregar o acento circunflexo diferencial nas letras “o” e “e” da sílaba tônica das palavras homógrafas ( côr, êle, ), entre outras alterações. 
Desde 1990, foi assinado em Portugal texto de mais um Acordo Ortográfico. Isto envolveu tais instituições: Academia Brasileira de Letras, Academia das Ciências de Lisboa e delegações de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Busca-se eliminar, com este novo texto, a dupla grafia de algumas palavras (ex: correção/correcção). Quanto ao trema, excluí-lo por completo. Os parlamentos respectivos do Brasil e Portugal já tiveram o texto aprovado. Todavia, isto não ocorreu com os demais locais onde se fala a Língua Portuguesa.
Enquanto não houver oficialmente a mudança, o Brasil irá continuar com o padrão, conforme o Sistema Ortográfico de 1943 (que foi aprovado pela Lei nº 2.623 de 21/10/1955 e modificado pela Lei nº 5.765 de 18/12/1971) e com a 2a edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, lançado pela Academia Brasileira de Letras (em 1998).
Atualmente, temos uma população de aproximadamente 230 milhões de falantes pelo mundo, sendo 220 milhões em países lusófonos e cerca de 20 milhões de emigrantes e amantes do idioma. Isto envolve, seguramente, culturas. Logo, é possível unificar a ortografia, mas não a Língua propriamente dita. Existem os que se declinam às mudanças que estão para chegar; há os que não estão satisfeitos.
O escritor José Saramago, Prêmio Nobel, declarou que está satisfeito com o uso atual, mas “não posso impor a milhões de pessoas os meus gostos pessoais”; o professor Pasquale Cipro Neto afirmou que “o curso supera o benefício”; para Mário Mendão, assessor jurídico da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP), “a unificação propicia a criação de um idioma de trabalho, recurso fundamental para os acordos diplomáticos”. O presidente da Academia Brasileira de Letras, Cícero Sandroni, ao recordar o escritor Fernando Pessoa, quando disse que “minha pátria é a língua portuguesa”, assegurou que “não importa a maneira como vamos pronunciar as palavras”. Já Mauro Villar, co-autor do dicionário Houaiss, lembrou em matéria divulgada à Folha de S. Paulo que em 1911 – quando se aprovou a primeira tentativa de unificar a ortografia – houve gritaria. Mauro Villar ressalta que o tempo decanta todas essas queixas. Diz, inclusive, que não seria interessante continuar escrevendo “chistallino”, “phantasma” ou “theísmo”, por exemplo.
Desta sintaxe de tensão, ou seja, entre os que são favoráveis e os que se opõem, minha mente se volta à lembrança da frase mais sólida à qual me declinei em minhas leituras. Ela, verdadeiramente, é inexorável: TEMPO MUDA CENÁRIO. É o que nos disse Balzac na Comédia Humana. O tempo, de fato, nos ajuda a ambiências, por mais sonoras que sejam as queixas no início de toda e qualquer modificação.
Porém, a preocupação é outra, caro leitor. É quanto ao entendimento de nossa declinável língua. Sua sintaxe, principalmente. É mister trabalhar, sobretudo em sala-de-aula, nossa sintaxe. Por mais que tendamos a simplificações, a Língua Portuguesa – por sua própria estrutura – tem seu limite. Linguagens, há várias. Não confundamos. A linguagem se pluraliza mais e mais, enraizando-se em um leque cultural “medonho”. A Língua também é flexível, pois não está morta. Dia a dia, usamo-la. Todavia, ponho em relevo que estamos perdendo o bom uso sintático de nosso idioma. E isto traz conseqüências significativas na comunicação. Hoje, deparamo-nos com textos truncados, textos sem paralelismos que possibilitam frágeis seqüências de idéias. Hoje, amigos,estamos testemunhando incompetências exageradas na produção escrita. É como se a voz já não mais seja possível ser retirada de uma página impressa ou de uma folha que se entregou com tamanha espontaneidade ao lápis que lhe chega. Grafite não falta no país do pau-brasil, mas falta quem saiba bem usá-lo.
Um texto bem composto exige progressão temática, centração temática, paralelismos entre enuncividades e enunciatividades, uso de articuladores comuns e conectores enunciativos, empenho na produção horizontal e vertical da composição, conexão entre a centração temática e sua progressão temática interna, para citar alguns construções ou engenharias em que a ortografia ou acentuação gráfica não seriam ferramentas indispensáveis. O próprio Saramago dispensou a sintaxe de pontuação em sua obra Memorial de um Convento.
O custo dessa possível mudança é, de fato, muito alto. Isto justificaria não se preocupar com tamanho projeto. Quanto aos que sentam à mesa, senhor assessor Mário Mendão, para tratar de assuntos altos, nobres e lúcidos, creio que já trazem expressiva estrutura escolástica que impeça desentendimento ou não comunicação, por mais diversificada que seja a escrita entre países afins no uso da Língua Portuguesa. Oportuno, sim, seria apropriar-se o Brasil deste volumoso recurso financeiro para renovar a estrutura didática no ensino do idioma, facultando a não perda de nossa capacidade escrita, principalmente. Cada geração vinda, à medida que o tempo passa, vai perdendo a escrita normativa. A maioria do jovem à nossa frente se mostra emudecido por não ter a habilidade de segurar o lápis com a própria língua. Sente o gosto do grafite na boca ( esse carvão a que se dá o nome de plumbagina e de que se fazem os lápis ), sente a ardência do pau-brasil que guarda e preserva o grafite ( esse alótropo do carbono, esse condutor ) que, quando bem utilizado, fantasticamente nos assenta em páginas e nos faz ignorar fronteiras, desdenhando a efemeridade de cenários temporais.
Eis algumas alterações que constam no texto mais recente para renovação ortográfica da Língua Portuguesa:
I - Consoantes mudas: desaparecem em Portugal o "c" e o "p" das palavras quando não pronunciados, ou seja, acção, exacto, inspector, baptismo, óptimo; II - Quando pronunciados, permanecem: compacto, impacto, egípcio, rapto; III - Dupla grafia: é permitida para as palavras pronunciadas de maneiras diferentes em Portugal e no Brasil: facto e fato, amnistia e anistia, corruto e corrupto, caracter e caráter; IV - Acento agudo: não será colocado no ditongo aberto "ei" de idéia, alcatéia, estréia, passando a ideia, alcateia, estreia; V - Acento diferencial: excluído dos "homófonos" pára (verbo), pôr (verbo), pêlo (substantivo), que passam a ser grafados para, por, pelo; VI - Acento circunflexo: não serão acentuadas as paroxítonas terminadas em "oo", de enjôo, perdôo, vôo, grafando-se enjoo, perdoo, voo; VII - Dupla acentuação: permitida nas palavras que têm acento circunflexo no Brasil e agudo em Portugal, tais como bebê e bebé, bidê e bidé, crochê e croché, Antônio e António; VIII - Hífen: permanece nas palavras começadas com "h" (anti-herói, pré-histórico) e antes das que se iniciam com a "última letra do prefixo" (super-resistente, pré-escolar); IX - Trema: desaparece totalmente, ficando, entre outras, consequência, linguiça, pinguim; X - Letras K, W, Y: são incorporadas, oficialmente, ao alfabeto da Língua Portuguesa.
Professor Edvaldo Ferreira
|